Até de repente #72
Neste exato momento, vivo uma cena clássica de todo brasileiro que viaja: estou parada em São Paulo (meu pior pesadelo, diga-se de passagem), bebendo um café superfaturado na espera de um voo, que só sai depois do meio dia.
À minha direita, de pé, uma vendedora balança o cardápio do estabelecimento que representa, oferecendo café da manhã, suco de laranja e chopp em dobro para quem passa. Para a minha surpresa, um casal para diante dela e pede um bife à parmegiana. São sete da manhã.
Uma moça vem até a minha mesa e me aborda, oferecendo um livro de autoajuda a qualquer preço. Segundo ela, o valor oferecido será usado no pagamento da sua mensalidade da faculdade. Ela ressalta muito que é estudante, mostrando, inclusive, um comprovante de matrícula da Estácio como prova. Falo que não quero ajudar e ela me deseja tudo de bom como quem não deseja nada de bom a ninguém. Será que é estudante de psicologia?
Ainda não inventaram nada melhor que voltar pra casa. Essa é uma frase que digo bastante, principalmente quando chego do trabalho. Ainda hoje, terei de lavar todas as roupas que possuo. Além disso, terei de ir ao mercado, pois deixei os armários vazios. Também vou ter que dar um pulo na farmácia, pois faz dois dias que uma das minhas medicações acabou. É bom estar (quase) de volta.
Vocês leram o texto da Chanté Joseph, na Vogue, sobre como é vergonhoso ter um namorado?
Eu não li, mas acompanhei memes na rede social ao lado. Em certo momento, o Substack me recomendou tantas publicações a respeito que acabei lendo textos sobre o texto. Tropecei nesse aqui, da Maisa, que tenho 99,9% de certeza que é uma brasileira escrevendo em inglês.
O texto dela foca em relacionamentos entre mulheres e homens (ou seja, ter um namorado é vergonhoso se você é uma mulher), o que acredito ser a impressão geral do texto da Chanté também. Na opinião da Maisa, ter um namorado é vergonhoso por uma série de questões que podem surgir ao assumir um namorado nas redes sociais. Fiquem aqui com alguns trechos do texto dela:
But if having a boyfriend is so embarrassing, how come everyone has one? All my friends are in relationships. Every influencer I follow is either in love, moving in with a man, or getting engaged. We claim it’s cringe, but we’re all posting male hands on steering wheels and shadows behind plates at restaurants. We’re not rejecting romance, we’re just rebranding it. [grifos meus]
You post him once and suddenly everyone’s a market analyst for your romantic stock. One bad outfit, one questionable like, and you’re publicly reevaluating your judgment. The internet has made the girlfriend experience feel like brand alignment and some of us aren’t sure our partners are PR-safe. [grifo meu]
Diante disso, pergunto: qual valor vocês dão aos seus perfis nas redes sociais? Será que, no final das contas, o problema é realmente ter um namorado, ou a gente está tratando nossa representação online como a de uma influencer, sendo que, na verdade, temos muito mais a ver com a Claudinha Bolo de Pote do que com a Virginia Fonseca?
Maisa traz alguns pontos interessantes em seu texto. Dei uma risada nervosa quando ela menciona o medo de ser aquela garota™ que começa a namorar uma cara e acaba tendo toda a sua existência resumida a ser a parceira de um homem. Mas será que isso é medo de ter um namorado ou de viver uma vida baseada na expectativa dos outros em relação ao seu relacionamento heterossexual? Pergunta sincera.
Por outro lado, Maisa traz pontos como este:
But don’t let them fool you. Everyone and their mother is cuffed up. No one’s bed is empty, no one’s DMs are dry, and no late night FaceTimes go unanswered. We’re still very much in the trenches, boo’d up, negotiating weekend plans and sharing playlists like it’s 2016 again. [grifos meus]
Quando li o trecho, tive certeza de que seria necessário deixar um comentário. Não para desafiar os pontos de vistas da Maisa, mas para ver se alguém concordaria com a minha linha de raciocínio. Será que eu tô louca?
Conheço uma pá de mulheres cuja cama está vazia, sim. Eu, inclusive, sou uma delas. E um ponto curioso: nem todas nós somos mulheres heterossexuais. Conheço bissexuais e lésbicas que estão com as DMs cheias de pó. Na minha experiência (e na de algumas dessas mulheres também), está difícil criar laços e conhecer pessoas que compartilham dos mesmos valores que os nossos. Minha suspeita é que essa dificuldade tem uma relação direta com como temos (re)tratado a vida nas redes sociais, o que acaba refletindo em como estamos (re)tratando a vida como um todo — porque, afinal, a vida nas redes sociais é parte da vida como um todo; se é uma parte grande ou pequena, aí é com cada usuário.
Aviso: o texto abaixo pode conter imagens fortes para alguns leitores. Leiam com moderação.
Achei que seria de bom tom levar um livro para a viagem. Afinal, em algum momento, eu não teria algo para fazer e, diante desse momento fatídico, a possibilidade de leitura me salvaria. Uma amiga me emprestou um livro: Amêndoas, de Won-pyung Sohn.
Comecei a leitura na piscina do hotel, enquanto pegava um sol. Entrei na piscina com ele mais de uma vez e nenhum acidente aconteceu. No dia seguinte, levei o livro comigo para a Crepes & Waffles. Juntos, comemos um belo waffle com calda de frutas do bosque e uma bola de sorvete generosa, sabor creme, meu preferido.
No meu segundo final de semana em terras estrangeiras, decidi levar o Amêndoas comigo para visitar uma ilha. Foi nessa aí, meus amigos, que o barraco desabou.
Não vou mentir: eu estava bem alcoolizada. Barra libre, como se diz em espanhol. Lembro vagamente de ter pegado o livro para dar uma volta, embora não tenha lembrança de lê-lo. Lembro também de tê-lo devolvido para a bolsa — não para o seu interior, mas de ter colocado o exemplar em cima dela, para não esquecer.
Sei lá o que aconteceu enquanto eu descia drink depois de drink. Sei que no barco, no percurso de volta à cidade, percebi que a bolsa estava um pouco molhada. Cheguei no hotel e o livro da amiga, agora dentro de bolsa, estava ensopado. Achei que a situação da capa poderia melhorar depois de seca, mas não melhorou muito naum. Mandei um áudio cheio de culpa e com a promessa de comprar um novo exemplar.
Não bastasse essa tragédia, aconteceu outra: ao pegar minha bagagem debaixo do banco do avião no fim de uma conexão, percebi que minha mochila estava molhada. Meu primeiro ímpeto foi ver como estava o notebook. Felizmente, à salvo. Já o livro… Coitado, sofreu mais do que Jesus na cruz.
Até de repente,
Fanny








Me identifiquei com essa sinceridade meio cansada, meio irônica, diante das pequenas tragédias e das grandes perguntas sobre afeto e exposição.