Até de repente #73
Tóquio, março de 1962
Noa estava falando de forma rápida e incoerente e colocou a mão na boca.
Akiko olhou para ele, sem entender. Não estava acostumada a ouvir não de um homem. As bochechas dele estavam vermelhas, Noa tinha dificuldade de encontrar palavras. Aquele não era o mesmo homem que explicava os trechos complexos de seus textos de sociologia e a ajudava com os trabalhos de estatística. Seu amável e prudente Noa estava furioso.
— O que foi? Você tem vergonha de ser coreano?
— O quê? — Noa deu um passo para trás. Olhou em volta para ver se alguém estava assistindo a discussão deles. — O que você está dizendo?
Ele olhou para Akiko como se ela estivesse louca.
Akiko se acalmou e falou devagar.
— Eu não tenho vergonha de você ser coreano. Eu acho ótimo que você seja coreano. Isso não me incomoda nem um pouco. Poderia incomodar pessoas ignorantes e até mesmo meus pais, que são racistas, mas eu adoro o fato de você ser coreano. Os coreanos são inteligentes e trabalhadores, e os homens são muito bonitos. — disse ela, sorrindo para Noa como se estivesse flertando. — Você está chateado. Ouça, se quiser, posso marcar de você conhecer toda a minha família. Eles teriam sorte de conhecer um coreano tão maravilhoso. Quem sabe isso mude a maneira como…
— Não — disse ele, balançando a cabeça. — Não. Chega.
Akiko se aproximou dele. Uma mulher mais velha passou e olhou para os dois, mas Akiko não deu atenção.
— Noa-chan, por que está tão bravo comigo? Você sabe que eu o acho incrível. Vamos para casa e você pode me foder.
Noa a encarou. Akiko sempre acreditaria que ele era outra pessoa — não ele mesmo, mas sua ideia fantasiosa de um estrangeiro. Akiko sempre se sentiria especial por ter aceitado ficar com alguém que todos odiavam. A presença de Noa provaria ao mudo que ela era uma boa pessoa, uma pessoa esclarecida, liberal. Noa não se importava de ser coreano nem japonês, de modo geral. Queria ser apenas ele mesmo, o que quer que isso significasse; queria esquecer quem era de vez em quando. Mas isso não era possível. Isso nunca seria possível com ela.
— Vou arrumar suas coisas e pedir que um mensageiro as entregue na sua casa. Nunca mais quero vê-la. Por favor; não me procure.
— Noa, o que está dizendo? — perguntou Akiko, estupefata. — É esse o famoso temperamento coreano que nunca vi antes?
Ela riu.
— Você e eu. Não é para ser.
— Por quê?
— Porque não é.
Ele não conseguia pensar em mais nada e queria poupá-la da crueldade do que havia compreendido, porque ela não ia acreditar que não era diferente dos pais, que vê-lo apenas como um bom coreano era o mesmo que vê-lo apenas como um mau coreano. Ela não conseguia enxergar sua humanidade, e Noa se deu conta de que isto era o que ele mais desejava: ser visto como um ser humano.
(Trecho de Pachinko, de Min Jin Lee. Editora Intrínseca, 2020)


