Até de repente #75

Desde aquele dia, a única coisa que ela esperava era que ele descansasse ao receber os cuidados que ela lhe dispensava. Mas apesar de seus muitos esforços, mesmo depois do casamento, ele parecia continuar cansado. Estava sempre ocupado com o trabalho, e quando por acaso parava em casa, parecia distante, como quem está em um hotel. Sobretudo quando o trabalho não ia bem, seu silêncio se tornava resistente como borracha e pesado como rocha.
Não demorou muito para ela se dar conta de que talvez a pessoa a quem ela tanto queria fazer descansar não fosse ele, mas sim ela mesma. Ela, que saiu da casa dos pais aos dezenove anos e foi se virar na capital sem a ajuda de ninguém: foi isso que viu refletido no rosto cansado do marido.
Assim como ela não conseguia ter certeza do seu amor por ele, nunca teve certeza do amor dele por ela. Às vezes achava que ele se apoiava nela por completa incompetência para a vida prática. Tinha uma personalidade intransigente que o impedia de se mostrar complacente, de modo que era impossível para ele ser tolerante ou elogioso com alguém. Ainda assim, era sempre gentil com ela, nunca usava palavras rudes e às vezes até a olhava com respeito e admiração.
“Eu não mereço você”, ele chegou a dizer antes de se casarem. “Sua bondade, equilíbrio, calma, sua postura de total naturalidade diante da vida… Isso me emociona.”
Parecia uma declaração de amor, embora difícil de compreender; mas agora ela se perguntava se não tinha sido uma confissão de que não estava apaixonado.
O que ele amava de verdade eram as imagens que filmou e as que filmaria no futuro. A primeira vez que foi a uma exposição dele depois do casamento, ficou perplexa: não conseguia acreditar que aquele homem, aparentemente tão frágil, tinha passado por tantos lugares carregando sua câmera. Para ela, era difícil imaginá-lo negociando a gravação em lugares complicados, tendo a coragem e a ousadia necessárias, além de paciência e persistência. Em outras palavras: não podia acreditar que existia tanta paixão nele. Percebeu que havia um abismo entre seus trabalhos apaixonados e sua vida cotidiana, na qual ele vivia como um peixe preso num aquário. A diferença era tão grande que não pareciam a mesma pessoa.
Em casa, viu seus olhos brilharem uma única vez. Foi na época em que Jiu tinha completado um ano de vida e começava a andar. Com a câmera na mão, ele filmou o filho dando os primeiros passos na sala ensolarada; a cena em que Jiu cai nos braços da mãe e ela o beija na cabeça. Então, cheio de vida, disse:
“E se eu acrescentar uma animação, fazendo brotar flores dos pés a cada passo que ele der, como no filme do Hayao Miyazaki? Não, melhor colocar uma revoada de borboletas. Ah, então melhor mesmo seria gravar tudo de novo num parque, não é, Jiu?”
Ele então lhe ensinou como manejar a câmera e continuou falando, empolgado, enquanto lhe mostrava o que já tinha gravado:
“Você e Jiu podem se vestir com roupas brancas. Não, não. Talvez seja melhor usar roupas bem surradas e comuns. Sim, assim é melhor: um piquenique de mãe e filho de uma família pobre. A cada passo desajeitado do bebê, um bando de borboletas coloridas sai voando, como um milagre…”
Mas eles não foram ao parque. Jiu logo cresceu e não andava mais se desequilibrando. O vídeo das borboletas ficou só na imaginação dela.
(Trecho de A vegetariana, de Han Kang, traduzido por Jae Hyung Woo. Editora Todavia, 2018)

