Até de repente #74

Passei o período de final de ano deitada, de calcinha e sutiã, com o ventilador na cara. Dormi bastante, joguei freecell e li Pachinko, tudo da cama. Em alguns momentos, senti dor no corpo de tanto ficar sobre o colchão. Agora, estou na primeira semana de trabalho pós recesso e, devo dizer, está sendo cruel. A vida, enfim, volta ao “normal” — mesmo que relativamente, pois enquanto o período de aulas não iniciar e as universidades e escolas continuarem vazias, refletindo, consequentemente, no esvaziamento da capital gaúcha, a “normalidade” parece se instaurar apenas em parte.
Da frente para o computador da firma, bocejo. A impressão é de que não há café nesta instituição capaz de me fazer despertar. Levanto, me espreguiço e caminho um pouco pelo espaço do escritório. Sinto o ímpeto de jogar conversa fora com os colegas, mas acabo escolhendo não atrapalhá-los. Agora, meio que sou chefe. Volto para a minha estação de trabalho, respiro fundo e sinto saudades dela — da minha caminha toda desajeitada, do jeito que a deixei cedo da manhã, coberta pela meia luz que entra pela janela do quarto.
À noite, quando chegar em casa, pretendo dar uma caminhada para, como diria qualquer idoso por aí, soltar as juntas. Depois do banho, prepararei a marmita do dia seguinte ao som de algum podcast de fofoca, lavarei a louça e, enfim, poderei deitar eternamente em berço esplendido. Minha cama é dura. Meu travesseiro de corpo é fofo. Gosto de vestir meias e esfregar os pezinhos até o sono chegar. Vou dormir cedo e, com um pouco de sorte, acordarei de madrugada em tempo de fazer preguiça e ler A Vegetariana antes da rotina para além do quarto iniciar.
Já comentei em cartinhas passadas que faço uso de medicações que me oferecem a magia e o pavor de ter sonhos vívidos, principalmente quando tomo os comprimidos em horários alternados. Aconteceu bastante durante o período de recesso, já que a rotina foi — pardon my french — para a casa do caralho. Destaque especial: o sonho em que fui para Moçambique com uma estudante em puerpério, peguei uma van clandestina de Maputo para o interior e, no trajeto, avistei animais selvagens em via pública, em meio a pontos turísticos. Gostaram da perpetuação desse estereótipos?
Em 2011, quando entrei na graduação, desenvolvi uma paixão platônica por um rapaz no ônibus. Nada mais estudante-de-literatura-novinha-de-dezessete-anos da minha parte do que se apaixonar por um garoto que, assim como eu, pegava um T10 todos os dias no mesmo horário e no mesmo lugar, rumo ao campus do vale. Por uma coincidência do destino, minha amiga conhecia ele de vista e, de alguma forma, graças à ela, acabamos engatando uma conversa no Facebook.
Posso ter sido uma adolescente mocoronga, mas me orgulho de ter tido coragem o suficiente para, depois de um tempo, confessar ao rapaz que eu gostava dele. Foi frente à frente. Cara a cara. Diante da minha declaração, ele disse que não gostava de mim da mesma maneira. Como já suspeitava, não morri. Acredito que ainda conversamos pela internet por mais algum tempo depois desse acontecido. Lembro de, anos depois — talvez depois de termos nos formado, inclusive —, ter recebido uma tentativa de flerte da parte dele pelo Instagram. Agora que eu cresci você quer me namorar?
Catorze anos depois, avistei o querido novamente durante o meu trajeto para a escola de dança. Ambos na mesma rua, cada um em uma calçada. O encontro voltou a se repetir e entrei em pânico todas as vezes. Fingi que não o vi. Simulei atender uma chamada no celular sendo que, na verdade, ninguém nunca me liga. Senti muita vergonha, mas por que exatamente? Meses depois do último encontro, passo a suspeitar que seja uma vergonha específica, característica de encontrar alguém que você não pretendia mais encontrar nesta vida. De forma simbólica, ele já havia morrido para mim. De repente, um morto-vivo na minha frente.
Assim como eu, a amiga que, no passado, nos possibilitou a conversa se mudou bastante desde a graduação. Depois de muitos anos, acabamos, nós duas, residindo em Porto Alegre novamente. Por mais que os tempos de faculdade estejam sempre em nossas conversas, nunca nos passou pela cabeça que ele ainda estaria na cidade. Agora, toda vez que vamos a um evento ou a um restaurante, eu a cutuco e pergunto: “Amiga, será que o ****** está aqui também?” e nós duas rimos. Dados os fatos, não seria nada impossível!
A piada é ótima, mas também levemente amarga, tendo em vista que o rapaz agora deu para habitar os meus vívidos sonhos. Querido, como sempre foi. Calmo, como sempre foi. Fácil, como sempre foi. Se eu pudesse escolher, preferiria mil vezes carregar o filho alheio em um meio de transporte suspeito, cercado por leões, por toda Moçambique, do que isso.
Até repente,
Fanny


